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Lembrando São João (Ruth Salles)

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Várias vezes, na história da humanidade, surgem aqueles que prevêem a vinda de seres especiais, que ocasionam uma grande transformação no mundo. Assim vários profetas previam a vinda de Jesus como Messias, e também São João Batista a previu e, além disso, preparou o caminho para a chegada do mestre. O nascimento de João foi também algo especial, pois Isabel e Zacarias eram já dois velhos. No entanto, Zacarias recebeu espiritualmente o aviso do nascimento de um filho e a ordem de lhe dar o nome de João. Isso causou grande espanto no lugar, porque João não era nome dado a hebreu algum. O nome João designa um grau de sabedoria.
Achei que cabe incluir aqui os versos que fiz a pedido da escola Waldorf Rudolf Steiner, e que foram ditos por alunos como Introdução à Festa de São João de 1999:

“Aqui
Na noite antiga de garoa e frio fino,
Subiam balões de luz
Em honra do primo de Jesus,
São João Menino.

E, em nosso coração,
Cada balão,
Subindo rápido e em linha reta,
Era o próprio João Menino
Se transformando em João Profeta.

Era o profeta
Que parecia o clarão da madrugada,
Antecedendo a chegada
Do grande sol nascente, da maior luz:
O Cristo Jesus.”

O nascimento de São João batista é comemorado em 24 de junho. No hemisfério norte é o solstício de verão, em que a força do sol, chegando ao máximo, começa a descrever até chegar o inverno, quando nasce Jesus. Os antigos acreditavam que no verão, a força física do sol atingia o máximo, ao passo que, no inverno, era a força espiritual do sol que atuava através de seus raios. Por isso, os mais devotos abriam suas vestes diante do sol do inverno, a fim de receber uma benção espiritual, ou a fim de rogar pela vinda do messias.
 
 A festa de São João, na Europa, por cair no verão, era feira ao ar livre. E o natal, por sua vez, sempre foi uma festa de dentro de casa, por cair no inverno. Como explica Rudolf Steiner, o planeta expira e se extroverte no verão junino do hemisfério norte, e inspira e se introverte em seu inverno natalino, para a gestação da primavera. Dá-se o contrário no hemisfério sul, mas festejamos as duas datas da mesma maneira. O aspecto da natureza “perpetuamente em festa” – como disse nosso poeta Olavo Bilac – nos permite comemorar São João fora das casas também, e expansivamente.
 
Também é curioso haver sempre a brincadeira de um casamento na Festa de São João. Será isso o resultado semiconsciente de uma sabedoria milenar? A de que São João Batista representa o último dos profetas antigos, ligados a um estado de êxtase, de transe, e que abre caminho para o homem novo, o Cristo, que veio acordar o ser humano para a descoberta de ser Eu? Une-se assim o estado antigo (êxtase) ao novo (desperto). Ou seria porque nosso pequeno eu descobre que abriga o verdadeiro Eu e se une a essa descoberta para poder crescer?
 
É dito de João que ele vivia no deserto, em grande ascetismo, e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre. Seu batismo era para os que já estavam preparados para a vinda do Messias. Segundo Rudolf Steiner, esse batismo constituía num mergulho demorado nas águas do Jordão, quando a pessoa, num quase afogamento, relembrava toda a sua vida e percebia a realidade da vida espiritual. A água, elemento primordial da formação da terra (“... e o Espírito de Deus pairava sobre as águas” Gênesis, 1), purificava profundamente aquele que João batizava, e que emergia com impulso para mudar o próprio rumo.
 
Sobre a pregação de João Batista e o que foi dito dele nas profecias de Isaías, incluo aqui um poema que adaptei do evangelho de São Lucas, capítulo 3:

Da Pregação De João Batista

No décimo quinto ano de reinado de Tibério Cesar,
Sendo Pôncio Pilatos governador da Judéia,
Herodes, tetrarca da Galiléia,
Sendo sumos sacerdotes Anás e Caifás,
Veio, no deserto, a palavra do Senhor a João,
Filho de Zacarias.
Ele percorreu toda a circunvizinhança do Jordão
Pregando o arrependimento,
Tal como está escrito no livro de Isaías.
E o povo clamou: “Que havemos de fazer agora?”
Respondeu João:
“Aquele que tem duas túnicas
Dê uma ao que não a tem;
E aquele que tem o que comer faça o mesmo;
E que não haja entre vós violência alguma.”
No fundo de seus corações,
Todos perguntavam se João não seria o Cristo.
Ele, porém, tomou a palavra e disse:
“eu, na verdade, vos batizo com água,
Mas ies que vem Aquele que é mais poderoso que eu,
E não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias;
Ele vos batizará com o Espírito Santo e com o fogo.
A sua pá Ele a tem na mão, para limpar sua eira e recolher o trigo ao seu celeiro.”
Assim, e com muitas outras exortações,
João anunciou a boa nova ao povo,
Tal como está escrito no livro de Isaías:
“Voz do que clama no deserto,
Preparai o caminho do Senhor,
Endireitai suas veredas.
Os caminhos tortos ficarão direitos
E os escabrosos, planos
Todo homem verá a salvação de Deus!”